Edição 2019

Reintegração de Posse

Festival Latinidades e os nossos passos que vêm de Longe e vão Adiante! 

Em entrevista à revista Manchete, em 1976, a historiadora e ativista negra BEATRIZ NASCIMENTO teve diante de si a pergunta: “Quais os espaços que o negro ainda tem que conquistar?”. Contrariando as expectativas por uma resposta fácil, ela fez bem melhor ao dizer: “O negro não tem apenas espaços a conquistar, tem coisas a REINTEGRAR também, coisas que são e que não são reconhecidas como suas características. O pensamento, por exemplo. Fico chocada quando se dá ao branco a cabeça, a racionalidade, e ao negro o corpo, a intuição, o instinto. Negro tem emocionalidade e intelectualidade, tem pensamento como qualquer ser humano. ELE PRECISA É RECUPERAR O CONHECIMENTO QUE TAMBÉM É SEU, e que foi apenas apoderado pela dominação. E por aí vamos chegar à discussão sobre a POSSE DO CONHECIMENTO”. 

Pouco de mais de 40 anos depois, ERICA MALUNGUINHO, educadora, artista plástica e ativista negra, impulsionada pela coletividade vivida na APARELHA LUZIA, torna-se a primeira mulher transexual a assumir um cargo de deputada no Brasil, na Assembleia Legislativa de São Paulo, tendo com mote da campanha e da MANDATA QUILOMBO o mesmo princípio de que falava Beatriz. Na convocatória para a cerimônia oficial, em 15 de março de 2019, um dia após os atos em memória da execução de Marielle Franco em 14 de março de 2018, Erica mais uma vez disse ao povo: “Reintegração de posse é dar continuidade histórica a passos que vêm de longe, de uma coletividade que precisa adentrar os espaços de poder da política institucional. QUE PENSA QUE TUDO QUE ESTÁ AÍ CONSTRUÍDO É NOSSO E NOS FOI RETIRADO. Não aceitaremos mais mediadores ou intervencionistas que falem por nós”.

Beatriz, de Aracaju para o Rio de Janeiro. Erica, do Recife para São Paulo. Ambas são para nós exemplos da legitimidade dos projetos negros de existência e liberdade, que têm mobilizado gerações da nossa gente neste país, em outros pontos do território amefricano e do mundo atlântico. Em seus trânsitos, enfrentamentos, afetos e sabedoria, elas representam dois marcos temporais a inspirar a realização desta 12ª edição do FESTIVAL DA MULHER AFRO-LATINO-AMERICANA E CARIBENHA (FESTIVAL LATINIDADES). De 23 a 27 de julho de 2019, estaremos juntas, e também entre os nossos, em São Paulo, para refletir sobre muito daquilo que foi e é nosso, e construir caminhos de futuro em que possamos ser e estar livres do racismo, do machismo, do sexismo, da LGBTTfobia, do elitismo e das diversas outras opressões que nos atingem! Estaremos lado a lado para afirmar a certeza ancestral de que, entre nós, o amor é e seguirá sendo maior!